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O movimento geral de apostas (MGA) no Rio de Janeiro vem caindo sucessivamente, e o turfe assiste, incrédulo, à aparente passividade da diretoria do Jockey Club Brasileiro diante da situação.
Não se vê e nem há um plano de ação divulgado claramente.
Não há metas divulgadas.
Não há relatórios explicando resultados.
Não há pesquisas de mercado.
Não há transparência sobre estratégias.
O chamado Plano Diretor do JCB, cuja ausência foi citada vários meses atrás por um diretor em plena reunião de diretoria, até hoje não foi apresentado aos sócios.
Se existe, não foi divulgado.
E estamos falando de um clube que movimenta mais de R$ 170 milhões por ano, mas que, na prática, parece operar sem planejamento estratégico formal.
A sensação predominante é de imobilismo.
Não existe um planejamento estratégico consistente, para agora, daqui a um ano, e 5 anos.
Não existe uma campanha de marketing estruturada, seja de curto, médio ou longo prazo.
Não existe horizonte definido para a atividade.
Curiosamente, em entrevista de agosto de 2020, concedida a Veja Rio antes de assumir a presidência, o atual dirigente afirmou que iria profissionalizar a gestão do turfe, implantar planejamento estratégico de marketing e recuperar o prestígio do clube, chegando a declarar que o marketing era praticamente inexistente e que havia grande potencial de crescimento. Também afirmou que o Jockey deveria voltar a ser um ponto turístico relevante da cidade, com mais eventos, mais público e aumento de receita.
Passados anos, o que se vê na prática é exatamente o oposto do discurso.
Não há planejamento estratégico divulgado.
Não há diretrizes claras para crescimento do movimento de apostas.
Não há estudos sobre o perfil do apostador.
Não há política consistente para fortalecimento da atividade.
O único ponto positivo recente é o programa Domingo no Jockey, que consegue levar um público relativamente maior ao hipódromo da Gávea, mas é um público de passagem. Não há abordagem para identificação do público, muito menos busca–se interação destes com a corrida. Não há registros ou relatórios.
Ainda assim, trata–se de uma ação isolada, com pouca efetividade no conjunto da atividade, sem continuidade estratégica e sem reflexo significativo continuo no movimento geral de apostas.
Sem planejamento, sem metas e sem campanha permanente, o turfe fica dependente de iniciativas pontuais, que geram impacto momentâneo, mas não mudam a tendência de queda.
Enquanto isso, o clube divulga um caixa com cerca de R$ 41 milhões, o que levanta uma pergunta inevitável:
Qual é o objetivo dessa gestão?
Em vez de investir fortemente na atividade — que há anos pede socorro — a impressão é que o saldo bancário se tornou mais importante do que o futuro da atividade principal do clube: O turfe.
Todos os meses, o clube recebe aproximadamente:
R$ 4 milhões em taxas de manutenção de sócios;
Perto de R$ 1 milhão em transferências de novos sócios;
Mesmo assim, não há um programa consistente para aproximar os sócios da atividade turfística;
Não há estímulo para que conheçam os cavalos, os treinadores, os bastidores, as corridas.
O resultado aparece na pista.
O número de páreos diminuiu.
O número de animais em treinamento diminuiu.
Com menos corridas, proprietários se desestimulam, vendem seus cavalos e boa parte deles vão embora.
Cavalos indo embora do hipódromo
E, embora tenha havido aumento nos valores dos prêmios nos últimos anos, eles ainda se encontram muito distantes dos patamares do período pré–pandemia, especialmente quando considerada a correção monetária do período. Na prática, o valor real das premiações caiu, reduzindo ainda mais o estímulo para proprietários manterem ou adquirirem animais.
Hoje, a formação dos programas se tornou um problema crônico.
Páreos com seis ou menos animais frequentemente são descartados, na busca por provas mais cheias, mas o efeito colateral tem sido grave: há constantes cancelamentos por falta de inscrição, o que gera êxodo de animais, desânimo de proprietários e insegurança para quem investe na atividade.
A prioridade passou a ser apenas formar páreos cheios, quando na verdade o desafio deveria ser aumentar a base de animais e de proprietários, e não simplesmente restringir o programa.
Sem corridas formadas, não há calendário confiável.
Sem calendário confiável, não há investimento.
Sem investimento, o ciclo de queda se acelera.
Outro ponto preocupante é a ausência total de estudos sobre o próprio apostador.
Não se veem pesquisas de perfil.
Não se analisam hábitos de jogo.
Não há estudos sobre quais apostas são mais atrativas.
Não há avaliação técnica sobre qual deve ser o caminho para melhorar o cardápio de apostas, aumentar o MGA e tornar o produto mais competitivo.
Busca–se soluções internas, o oposto da campanha para a eleição, que era profissionalizar a gestão do turfe.
Em um mercado que hoje disputa atenção com bets, cassinos online e outras modalidades, trabalhar sem dados é administrar no escuro.
Hoje, estima–se que 80% dos cerca de 80 treinadores da Gávea não consigam renda mensal de R$ 3.000, uma realidade incompatível com a importância histórica do turfe carioca.
Isso precisa ser enfrentado.
Quem não consegue enxergar o turfe como um sistema completo — criador, proprietário, treinador, jóquei, apostador e público — talvez não devesse estar ocupando cargo de gestão.
Fica aqui uma previsão.
Se nada mudar, em poucos anos o Jockey Club de São Paulo estará pagando prêmios maiores do que o Rio de Janeiro.
E quando isso acontecer, ficará claro que o atual estado melancólico do Jockey Club Brasileiro não foi obra do acaso.
Foi consequência de escolhas.
Ou da falta delas.
Da Redação