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Colunista:

Floreando, por Milton Lodi
19/07/2012 - 10h16min

ESCOLA CHILENA DE JÓQUEIS

Uma das diferenças entre o turfe brasileiro de outras épocas e as mais recentes diz respeito a jóqueis chilenos. A escola chilena de jóqueis produzia verdadeiros mestres na arte de montar cavalos de corrida que fizeram enorme sucesso nas pistas paulistas e cariocas. Principalmente nas provas clássicas, as grandes coudelarias dominavam não só pela qualidade de seus animais como pela arte de seus jóqueis, muitos contratados, e o grande público turfista assistia empolgado a verdadeiros duelos entre cavalos e jóqueis do melhor valor. Aos domingos a ida ao prado significava ir ver espetáculos incomparáveis de competições em alto padrão técnico. Quando um proprietário menor conseguia superar as expectativas gerais, conseguindo vencer uma prova clássica importante sobre os grandes studs e seus primorosos jóqueis, era uma festa. Durante muitos anos, os chilenos dominaram, já vinham para o Brasil quase sempre contratados por studs do porte de Paula Machado, Peixoto de Castro, Seabra, Rocha Faria, e mais uns poucos de forças turfísticas. Com raras exceções como Luiz Rigoni no Rio e Pierre Vaz em São Paulo, os jóqueis brasileiros levavam desvantagem, pois em termos médios os chilenos tinham mais classe, tinham aprendido a profissão bem orientados dentro de uma linha de aprendizado de tal gabarito que chegou a influenciar até o estilo europeu. Só como mero exemplo, os jóqueis franceses conheciam equitação, a arte de montar, mas eram muito ruins na hora de fazer correr, afrouxavam os governos, sacudiam o corpo, levantavam–se nos estribos, empunhavam os chicotes espalhafatosamente e em riste, não ajudavam o equilíbrio dos seus conduzidos.

A ótima revista francesa especializada Courses et Elevage, à época uma das duas melhores do mundo (a outra era a inglesa The British Racehorse), normalmente mostrava até nas capas fotografias dos excelentes cavalos franceses em momentos de luta, e era normal ver–se as horrorosas posições até dos melhores jóqueis franceses, cabeças boas em movimentação corpórea de dar pena, principalmente para aqueles que conheciam a classe e a postura dos jóqueis chilenos. É claro que isso se refere em termos médios gerais. Um dia surgiu um jóquei francês com uma postura física semelhante ao estilo chileno. O nome desse jóquei “revolucionário” era Yves St. Martin. Não seria necessário dizer que não só dominou as pistas francesas como era à época o único que enfrentava tecnicamente o inglês Lester Pigott, que era considerado um verdadeiro gênio na profissão, cabeça maravilhosa, mas por ser alto, tinha uma posição feia, estribava longo, embora eficiente. Quando Sr. Martin e Pigott se enfrentavam em grandes provas internacionais, era um espetáculo aguardado com ansiedade pelo público. Yves St. Martin, com a sua alta categoria e uma postura digamos assim, mais próxima da chilena, mudou o cenário francês, foi copiado dentro do possível pelos outros.

Lembrar dos bons chilenos que vieram para o Brasil é falar de Luiz Gonzalez, que fixou–se em São Paulo, além de René Zamudio e Roberto Olguin, dos que vieram para o Rio, como José Salfate, Julio Canales, Luiz Leighton, Juan Zuniga, Gabriel Meneses, Juan Amestelly, Juan Marchant, Oswaldo Ulloa, Luiz Diaz, Francisco Irigoyen, Emidgio Castillo, René Latorre (ótimo aprendiz que não prosperou como  jóquei), e mais alguns da brilhante escola chilena.

Na Argentina, só havia jóqueis que montavam de freio, mas a temporada que Juan Zuniga passou em Buenos Aires mudou por completo o panorama, a embocadura de freio acabou, hoje impera o “filete” (bridão).

Mas, com esse sucesso espetacular e sua influência pelo mundo, por que praticamente acabou a “fábrica” dos grandes “ginetes” (jóqueis)? O que se viu foi que, aos poucos, os melhores chilenos que vinham eram cada vez menos técnicos e mais “toureiros”, substituindo a arte pela valentia. Já nessa fase de declínio, eu me lembro do brilhante criador e proprietário Henrique de Toledo Lara, do Haras Faxina, muito irritado com a performance de um jóquei chileno por ele recém contratado, perguntando zangado a ele se ele estava querendo voltar de imediato para o Chile. O tal jóquei perdera a corrida, pois em lugar de correr para ganhar, passara todo o percurso “caçando” os adversários. Esse foi um primeiro sinal, que à época imaginei ser um caso isolado. Mas o fato passou a se repetir com outros chilenos, de um modo geral mais preocupados com os “partidos”, desvios de linha, e semelhantes, do que com a melhor técnica para vencer. Os anos se passaram dentro da nova realidade, vários jóqueis chilenos vieram e não deram certo. Penso que o motivo básico dessa transformação se deve à queda de padrão do turfe chileno. O que se viu no Latino–Americano realizado no Chile foi a incrível invasão da pista por populares, até junto ao partidor circulavam mulheres com filhos no colo, e um percurso em que o melhor animal chileno, uma égua, venceu, para o delírio do público e da imprensa de lá, que gritava aos microfones “uma coroa para a rainha”. Mas visivelmente, às claras, o jóquei da ganhadora puxou a cana esquerda das rédeas para bloquear a passagem de Sal Grosso. Conversei com os dois jóqueis brasileiros que correram no páreo, Luiz Duarte (Sal Grosso) e Marcello Cardoso (Timeo) e os dois concordaram que o partido fora desclassificatório, mas que uma eventual desclassificação provocaria um banho de sangue.

A ótima escola de jóqueis chilenos não existe mais, pois o ambiente turfístico deixou de ser técnico para ser de valentia do populacho, de uma competição esportiva passou para uma guerra, para uma briga, sob os olhares complacentes de inadequados árbitros fiscalizadores.

Essa é a apreciação de quem teve o privilégio de assistir as maravilhosas performances técnicas dos azes das rédeas, hoje com os seus espaços ocupados por gladiadores.



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